domingo, 15 de maio de 2011

A ÚLTIMA VIAGEM

 
Meu pai sempre viajou na época da adolescência. Naquele tempo, havia mais propostas de emprego do que pessoas procurando. E olha que ele nem era tão antigo assim. Em meados dos anos 50, o rádio não era invenção velha e a TV em cores ainda não tinha chegado ao Brasil. Foi alfaiate, a mesma atividade exercida por quase todos da família, terminando seus dias mais ativos com o cargo de comerciante.
Num dia de domingo, o qual não recordo a data – fiz questão de esquecê-la – ele me surpreendeu com uma viagem que precisaria fazer, a contragosto da família. Embarcava para Salvador, devido a uma enfermidade que havia lhe acometido o corpo, de tal gravidade que não se achava capaz de andar ou sentir qualquer sensação da cintura para baixo. Senti, nesse dia, algo diferente. Não digo que fosse a doença ou a viagem em si, mas penso que a sensação era por mim ainda desconhecida. Eu a desvendaria mais tarde.
Ficou por seis meses em tratamento, de pouco sucesso. Nós o acompanhávamos todo o tempo, renovando a companhia necessária a cada quinze dias, porque a idade dele permitia que não ficasse sozinho. Sorri algumas vezes, fiz amigos, criei medos, expectativas. Um mundo todo novo abriu-se para mim; com ele, uma tonelada de angústias e indecisões invadia meu ser. Queria voltar para casa. Gostaria de ver meu velho recuperado. Passaram-se seis meses nada animadores.
Voltamos para casa. À nossa espera, alguns amigos, meu irmão e minha mãe, o cachorro e o gato. Certos curiosos. Quase não o reconheceram, tamanha mudança física e psicológica que havia se processado naquele homem. Mas suas ideias, hábitos e ambições estavam no lugar. Tudo parecia normal. Os dias passaram com a rapidez do vento e logo ele ganhava aquele corpo de antes, o mesmo que o tornava reconhecível à vista dos ignorantes que lhe traiam pelas costas.
Precisava fazer mais uma viagem, e esta seria a última. Fato que ele não nos avisou, porque seria uma surpresa. A mais articulada experiência do destino se processaria em breve, ao tempo em que eu me lembrava daquele vago sentimento que me assaltou quando meu pai viajou na época em que adoecia.
De tudo quanto sucedeu, só não imaginava que essa viagem aconteceria sem que nos despedíssemos. Sem um adeus, mesmo que de longe. Ao amanhecer dos últimos dias de estadia de uns parentes meus, quando apenas eu e uma tia estávamos por perto, papai sairia repentinamente de nossas vidas, agonizando num instante final, desesperadamente à espera da enfermeira que traria os remédios da salvação. Numa atitude insana e inconsciente, minha tia olhou o relógio e viu que não dava mais tempo. Restava ainda uma oração, um beijo. Já era tarde. Havia partido gloriosamente e ascendido a algum lugar que ainda não fui.
Não choramos, até porque ele mesmo não chorou. Reunimos a família e cantamos louvores tristes. Só então choramos. Superamos, aos poucos, sem esquecer, contudo, aquela que seria, para ele, a última viagem.

Pauta para o bloinquês: 67ª edição conto/história "Olhou o relógio e viu que não dava mais tempo".


À NAMORADA QUE AINDA NÃO TENHO

Querida namorada que ainda não tenho:

Oi, estou escrevendo esta carta sem saber por que cometo tal insanidade. À namorada que ainda não tenho, para que, quando chegares e ocupares a minha vida, nos reconheçamos sem arrependimentos futuros. Talvez seja essa carta uma loucura desmedida, um esforço lançado em meio ao vazio. Mas farei diferente. Deixarei que as águas do mar conduzam e levem minha carta no vácuo da eternidade, na frieza penosa dos mares noturnos sem estrelas cintilantes. Já que não tenho seu endereço, desconheço seu nome e a sua existência, não a encontrarei, mas a minha carta lançada ao mar fará isso por mim. Enquanto isso, eu a espero, vinda de algum lugar, em resposta ao que enviei ao acaso.
Saiamos dos rodeios inesperados e sem cor, para os devaneios inéditos que contém a carta. Não peço muita coisa. Não me sinto neste direito. Adianto o que sou, enquanto escrevo, para que me reconheças, e peço que atenda às minhas esperanças, pois não quererei me decepcionar com minhas opiniões.
Antes de continuar a ler, precisa saber o eu sou, a cada dia, porque minha personalidade é tão mutável que é possível eu ter mudado completamente o meu eu quando fechar a rolha e lançar ao mar o veículo que conduzira um passo a mais em minha vida.
Sou poeta. Sonhador. Gosto de aventuras, mas sem ir para muito longe. Já fui até as estrelas e quase não voltei. Tenho medo. Possuo devaneios. Meu lado mal escreve contos, enquanto meu lado bom faz cartas. Às vezes gostamos de trocar as coisas, tanto que nem sei qual dos dois “eus” escreve agora. Minha capacidade de ouvir é maior que a habilidade de dormir, mas é menor que a facilidade que tenho de amar e superar todas as coisas. Algumas vezes transformo meu amor em palavras, e saem devaneios primitivos, banais, animais, divinos.
Quero fechar esta carta pedindo que, a destinatária que for escolhida pela garrafa, preencha uns poucos requisitos, para a boa convivência de nós dois. A sorteada necessita mudar comigo a cada dia, renovar-se. Nada de manter a relação na mesmice e terminar tudo em uma rotina desgastante. Ela pode ter um lado escuro, para acompanhar meus momentos diabólicos e depressivos. Há de vir com um “eu” angelical, porque meu lado bondoso, de tão idiota e indeciso, fica muito só. Quero que seja falante, para que cada palavra de amor que disser transforme-se em poesia. Que a capacidade de superar minhas mudanças seja igual à minha qualidade de amar. Que acordemos todos os dias, com promessas de renovação, renunciando a cada “eu” meu que não combinar com o seu, e acolhendo cada parte minha que se sentir carente de amor.
                 De: alguém misterioso com um sonho nada normal

Pauta para o bloinquês, 43ª edição cartas - Coloquei uma carta, numa velha garrafa (♫)

sábado, 14 de maio de 2011

DOS DIREITOS DO HOMEM POLÍTICO

Desde os tempos em que se instituiu a “Pólis” (cidade) e a política (o governo coletivo dos cidadãos da “Pólis”), as decisões tomadas por alguns sempre dividem os milhares. Há quem concorde e quem discorde quando o assunto tem um caráter polêmico. Não é diferente com a discussão a respeito da legalização da união entre homossexuais, com seus direitos constitucionais assegurados pela lei.
Dentre os vários direitos constitucionais do homem, estão o direito à liberdade de expressão e opção, por exemplo, e todo aquele que, de alguma maneira, mostrar-se intolerante às escolhas religiosas ou sexuais de outra pessoa, ofendendo- lhe a moral, comete crime.
Sou heterossexual e a favor dessa ideia do STF, porque acredito no livre arbítrio de todos, nos direitos constitucionalmente garantidos, na felicidade e na plena democracia. Isso não mudará o pensamento das pessoas que têm preconceitos acerca disso, assim como não afetará aqueles que não desenvolvem qualquer atitude contrária. Para os homossexuais, a luta em busca de respeito e tratamento humano em meio à sociedade não terminará, e o amor que existe entre essas pessoas será indiferente ao resultado final.
Acredito, assim, que um tom favorável garantirá, pelo menos no papel, os direitos que tornam os homossexuais mais próximos daqueles que a sociedade aceita – os heterossexuais – e os intolerantes terão de responder à justiça caso cometam qualquer ato discriminatório.


Pauta para o bloinquês: 60ª Edição Opinativa - Decisão do STF

quarta-feira, 11 de maio de 2011

UMA FLOR NASCEU NO ASFALTO



UMA FLOR NASCEU NO ASFALTO
E OS AUTOMÓVEIS PASSAVAM
MAS QUEM PASSAVA, NÃO VIA
E QUEM NÃO VIA, PASSAVA
PORQUE SE OS AUTOMÓVEIS PASSAM
MAS NÃO ENXERGAM A FLOR
ENTÃO AQUELA ROSA
É UMA FLOR SEM SENTIDO
SEM PERFUME, SEM COR

UMA FLOR NASCEU NO ASFALTO
E NUM DIA DE FERIADO
QUANDO TODOS ESTAVAM EM CASA
APENAS UM HOMEM PASSAVA
E ELE VIU QUE A FLOR ESTAVA SÓ
E ELE VIU QUE A FLOR ERA BONITA
E ELE DESEJOU AQUELA FLOR
E ELE QUIS ARRANCAR A FLOR DO ASFALTO
A FLOR NÃO SAIA, ESTAVA FIRME, FUNDA

UMA FLOR NASCEU NO ASFALTO
E UM HOMEM A CONTEMPLAVA
E UM HOMEM A QUIS
O HOMEM NÃO A TEVE
O HOMEM QUIS ENTÃO SE VINGAR
E O HOMEM FOI TOCANDO NA FLOR
E O HOMEM FOI AGARRANDO A FLOR
E O HOMEM ODIAVA A FLOR
E A FLOR TORNOU-SE ODIADA

UMA FLOR NASCEU NO ASFALTO
E ALGUÉM QUIS TIRÁ-LA DE LÁ
NÃO CONSEGUINDO O FEITO
O HOMEM OFENDEU A FLOR
O HOMEM DESPETALOU A FLOR
AQUELA FLOR FICOU DESAMPARADA
E NINGUÉM PODIA SOCORRÊ-LA
ERA FERIADO E MELHOR SERIA A FLOR NUA
NÃO TER NASCIDO NO MEIO DO ASFALTO!

AMOR FATAL

Um amor fatal com certeza pode ser letal. Mortal. Fisicamente visceral. Há pouco tempo um amigo meu, de nome Pedro, se apaixonou por uma moça. Não era uma moça qualquer. Tinha os olhos mais lindos que um diamante exposto ao sol, uma pele mais bronzeada e mais bela que o prateado da lua cheia, e uma voz que desafiaria o próprio cantar do Rouxinol. Não sei se era deusa ou demônio, mas enfeitiçou a nós dois. Ao mesmo tempo. Pedro ficou alucinado por ela, e eu só escapei porque já tinha um amor ainda não concretizado, porém muito desejado. Meu anjo se chamava Thaís. Ela não sabia bem que eu a amava, mas eu a queria mais que tudo, e resistiria ao próprio demônio por ela.
Aquela mulher encantadora tirou o sono do meu amigo. Confesso ter sonhado com ela duas vezes, tamanha beleza devastadora que ela tinha. Pedro todos os dias sonhava, e já não era mais o mesmo...
Me aproximei dela – com medo, claro – e vi que não era uma miragem. Perguntei a ela se tinha telefone, ao tempo em que queria correr dali, com medo da resposta dela. Fiz pelo meu amigo. Tocado por um feitiço poderoso, como uma droga injetada na veia, anotei o número dela, após ter convenientemente apontado para meu amigo, que estava bebendo numa mesa pouco distante.
Aquela mulher era a loucura de todos: perdição dos bons e a satisfação dos maus. Parecia mesmo um feitiço, do qual meu amigo não pôde se livrar. Era um amor fatal. Alguns meses depois, sem ter sucesso com aquela garota, nada mais lhe interessava. Ela, apenas ela, a sua razão de viver, ou o motivo certo para morrer. Assim ele me disse, assustando-me, um dia desses. Não levei muito a sério, mas aconselhei que ele superasse isso.
Algum tempo depois, ele estava com uma ideia fixa de que findaria sua existência se aquela dama – ou demônio – não atendesse ao telefone. Era a sexagésima sexta vez em que estaria ligando, sem sucesso, para aquela mulher. Ele sumiu e voltou ao bar mais tarde. Ai ele me disse, com ar muito sério: eu vou me matar e vai ser esta noite, e você vai presenciar tudo! De todos os meios usei para demovê-lo desta ideia, mas foi vã a minha intenção. Realmente, sabem os meus botões, que eu já tentei de tudo, mas ele não deu ouvidos aos meus conselhos, e saiu, após um trago, pela porta da frente, e demorou a voltar...
Fui atrás dele e o procurei nos lugares em que ele costumava ficar. Senti um choque muito grande e desmaiei, quando vi um corpo pendurado por uma corda, um laço do diabo, e uma foto dela ao chão, onde nem mesmo uma brisa soprava. Meu amigo me estendendo a mão, num último suspiro. Ele tinha um olhar arrependido, pedindo socorro! Expirou e se foi, para sempre. Só então os ventos começaram a soprar, levando para longe a história de um amor fatal.




Pauta para o bloinquês: 66ª Edição conto/história - Frase da semana: Eu já tentei de tudo, mas ele(a) não deu ouvidos