quinta-feira, 26 de maio de 2011

CADÊ O RESPEITO?


Passeando pelas ruas
Outro dia eu vi
Um homem estranho
Que andava por ali
Com seu carro importado
Não era pobre coitado


Abriu o vidro e jogou
No chão um papel de bala
Fiquei com vontade de ir lá
E o trancar no porta-malas
Porque faltou com respeito
A um povo honesto e direito


O respeito é importante
Que deve ser praticado
Temos os nossos direitos
Pelas leis assegurados
Mas tem gente que não entende
Ô povo pobre e coitado!


Indivíduos desonestos
Cheios de si e vaidades
Vão passando pelas ruas
Deixando suas maldades
Desrespeitando o que é do povo
Passando por cima da sociedade

É assim que muitos veem
Os patrimônios da cidade
Só porque não lhes pertence
Fazem estragos e maldades
Se não preservam o que é do outro
Há respeito de verdade?

PAUTA PARA O BLÓÍNQUÊS: 40ª EDIÇÃO POEMAS
.Tema: Respeito


DE UM JEITO DIFERENTE

Minha irmã sempre gostou de ver o mundo com outros olhos, e por um ângulo diferente. Enxergava as coisas, pessoas e situações de um modo que ninguém mais poderia fazê-lo. Aos três anos de idade, um acidente em casa com produtos químicos fez com que ela perdesse a visão em um dos olhos. Permaneceu desmotivada da vida por um tempo, e já não via graça em muita coisa na vida.
Tivemos uma ideia: dar-lhe-íamos uma máquina fotográfica, para ensinar a ela que poderia ver o mundo e a vida de um jeito especial. Assim o fizemos e logo ela gostou tanto da aventura que se fazia fotógrafa em todos os ambientes. Por questão de apoio e aprendizado, comprei uma máquina para mim, e ela me ensinou como manuseá-la. Saíamos juntos a registrar as coisas belas da natureza, e sempre guardávamos para a posteridade.
Na estrada que vai da nossa cidade até a casa da nossa avó tem uma paisagem maravilhosa, com muitos animais, alguns até raros, ainda preservados. Outro dia, passando por lá, avistamos uma ararinha azul, ave que já se encontra em extinção. Aí minha irmã pediu que a gente parasse ali, no meio do caminho, para que ela pudesse registrar esse eterno momento. Concordei com a proposta e ela logo saltou do carro, sem me esperar, porque não poderia perder aquela oportunidade. Vi que outras pessoas estavam no local também. Uns observando e admirando, outro fotografando.
A foto mais espetacular da minha vida foi nessa mesma estrada. Minha irmã pôs-se alegre à beira do caminho, e como podem ver na foto que tirei, ela ficou tão radiante com a novidade do pássaro que deitou-se ao chão, curvou um pouco a cabeça para trás e, de cabelos soltos e pernas pro ar, fotografou enfim aquela ave rara. Mais rara foi essa foto. Simplesmente única. Inexplicavelmente linda. Acho que ela fez isso, porque, além de muito feliz, não sabia que eu estava com a máquina fotográfica na mão. Não hesitei o instante e registrei, eternamente, um pequeno exemplo de que minha querida irmã, de repente, havia mesmo aprendido a olhar a vida de um jeito todo diferente!

pauta para o bloinquês:
70ª Edição Visual - Projeto Bloínques.

domingo, 15 de maio de 2011

A ÚLTIMA DANÇA



Meu corpo em seu corpo
Dois passos para trás
Num baile teimoso
Que não acaba mais.


Meu fim está próximo
Me dê sua mão
Depois da meia-noite
Serei ilusão.


Repita comigo
A última dança
Com passos contados
Inocente criança.

Não vês que me perdes
Não sabes que me perco
Num poço profundo
Na dança do beijo.

Sejam minhas as tuas pernas
Sejam teus os meus anseios
Valsando nossa última dança
Como dançam teus seios!

Meus passos incertos
Quereres encobertos
Em teus braços criança
Em nossa última dança!

Pauta para o bloinquês, 39ª EDIÇÃO POEMAS Tema: Dança

O SORRISO DE UM ANJO


Thaís era uma menina meiga que alcançava a idade de 12 anos. Seu amigo inseparável desde os seis anos de idade, Rodrigo, precisou se afastar dela para fazer um tratamento contra o câncer, que lhe afetava o pulmão. Ele tinha a mesma idade que Thais. A mãe de Rodrigo fumava e bebia desde a gravidez, e não parou nem mesmo quando seu filho nasceu.
Numa noite de chuva o menino acorda com muita dificuldade de respirar, sentindo muita dor no pulmão direito. Seus pais o levam desesperados ao hospital. Vem a triste notícia de que ele desenvolveu câncer de pulmão, o mesmo estava em fase avançada. Já tivera outras crises, mas nada grave, que motivasse exames específicos. Silenciosamente aquele menino aparentemente saudável tornava-se cada vez mais deprimido.
Passados dois meses, o cabelo de Rodrigo havia caído totalmente, e sua aparência nefasta era mais que isso. Não sorria. Todos os dias chorava. A única companhia de que poderia dispor era a amiga Thais, que ficava horas conversando e brincando com ele, numa frustrada tentativa de animá-lo a seguir com o tratamento.
O tratamento quimioterápico não fazia progressos, e a mãe também não dispunha de motivos para sorrir, culpando-se a cada segundo pela bruta irresponsabilidade de não ter cuidado direito da saúde de seu filho, entregando-se com mais amor aos vícios do que à sua prole.
Quando chegou ao hospital, Rodrigo não tinha recebido nenhuma visita. Nem mesmo de Thais. Ela foi uma semana depois, tão logo seus pais permitiram. Rodrigo esboça um primeiro sorriso. E o último que entregaria à amiga e aos seus pais dali em diante.
Thais passava o tempo pensando numa maneira de fazer seu melhor amigo sorrir e ter esperanças de cura. Ah! Se fosse descoberto a tempo... Aquela menina contemplava seu amigo de um jeito diferente. Seria amor? Não sabiam o que era aquilo. Um sentimento de fraternidade? Talvez. É mais certo assim. Contudo, Rodrigo não via o tempo passar, mesmo em tão bela presença. Thais – pensava ele – se eu tivesse tempo, lhe diria tantas coisas, muito lhe agradeceria.
Sem esperanças de alguma melhora, o menino recebe alta e vai para casa. Os pais tristes e inconformados. Ele, sem conforto algum.
De um estalo, Thais teve uma ideia. Quem sabe, se ele tivesse cabelo, ficaria mais animado, e não se envergonharia com sua aparência? Onde eu vou arrumar cabelo? – pensou. Ah, doarei um pouco do meu. Assim, ele sempre vai lembrar de mim! Vai ficar bonito! – disse, com lágrimas nos olhos. Sorria, enquanto cortava algumas mechas, escondida no banheiro da casa. Colocou-as no bolso frontal de sua roupa e pediu que os pais de Rodrigo o levassem para a sala. Seria uma surpresa. Nem os pais dele sabiam do que se tratava.
Quando Rodrigo e seus pais estavam chegando ao local combinado, sua amiga o aguardava. Os pais fizeram uma cara de espanto, misto de alegria e pergunta, enquanto o menino não compreendia nada. Ela pede que seu amigo tire o boné e coloca, carinhosamente, um pouco de seu cabelo na cabeça dele. Pronto, amigo! Agora poderá ficar mais bonito, e sair pelas ruas! Num gesto de retribuição, ele entrega a ela o boné, e os dois agora sorriem, pela segunda vez, desde que tinham conhecido um quarto de hospital.
Thais despede-se de todos, porque já era tarde. Abraça seu amigo e vai. Move a maçaneta da porta e olha, mais uma vez, aquele sorriso, eterno, inacabado. Fecha-se aquela porta e juntamente com ela muitas outras. Ao cair da noite, uma hora depois, ligam para a casa de Thais. Partiu para a eternidade aquele melhor amigo, que sorriu para ela, como num gesto de despedida, uma mensagem de adeus. Os pais de Rodrigo nunca mais foram os mesmos. Não viam mais a graça da vida, e Thais demorou muito tempo para se recuperar daquilo, mas sentiu que havia feito um anjo sorrir. Cumpriu sua missão.

                          Pauta para o bloinquês, 24ª edição roteiro

A ÚLTIMA VIAGEM

 
Meu pai sempre viajou na época da adolescência. Naquele tempo, havia mais propostas de emprego do que pessoas procurando. E olha que ele nem era tão antigo assim. Em meados dos anos 50, o rádio não era invenção velha e a TV em cores ainda não tinha chegado ao Brasil. Foi alfaiate, a mesma atividade exercida por quase todos da família, terminando seus dias mais ativos com o cargo de comerciante.
Num dia de domingo, o qual não recordo a data – fiz questão de esquecê-la – ele me surpreendeu com uma viagem que precisaria fazer, a contragosto da família. Embarcava para Salvador, devido a uma enfermidade que havia lhe acometido o corpo, de tal gravidade que não se achava capaz de andar ou sentir qualquer sensação da cintura para baixo. Senti, nesse dia, algo diferente. Não digo que fosse a doença ou a viagem em si, mas penso que a sensação era por mim ainda desconhecida. Eu a desvendaria mais tarde.
Ficou por seis meses em tratamento, de pouco sucesso. Nós o acompanhávamos todo o tempo, renovando a companhia necessária a cada quinze dias, porque a idade dele permitia que não ficasse sozinho. Sorri algumas vezes, fiz amigos, criei medos, expectativas. Um mundo todo novo abriu-se para mim; com ele, uma tonelada de angústias e indecisões invadia meu ser. Queria voltar para casa. Gostaria de ver meu velho recuperado. Passaram-se seis meses nada animadores.
Voltamos para casa. À nossa espera, alguns amigos, meu irmão e minha mãe, o cachorro e o gato. Certos curiosos. Quase não o reconheceram, tamanha mudança física e psicológica que havia se processado naquele homem. Mas suas ideias, hábitos e ambições estavam no lugar. Tudo parecia normal. Os dias passaram com a rapidez do vento e logo ele ganhava aquele corpo de antes, o mesmo que o tornava reconhecível à vista dos ignorantes que lhe traiam pelas costas.
Precisava fazer mais uma viagem, e esta seria a última. Fato que ele não nos avisou, porque seria uma surpresa. A mais articulada experiência do destino se processaria em breve, ao tempo em que eu me lembrava daquele vago sentimento que me assaltou quando meu pai viajou na época em que adoecia.
De tudo quanto sucedeu, só não imaginava que essa viagem aconteceria sem que nos despedíssemos. Sem um adeus, mesmo que de longe. Ao amanhecer dos últimos dias de estadia de uns parentes meus, quando apenas eu e uma tia estávamos por perto, papai sairia repentinamente de nossas vidas, agonizando num instante final, desesperadamente à espera da enfermeira que traria os remédios da salvação. Numa atitude insana e inconsciente, minha tia olhou o relógio e viu que não dava mais tempo. Restava ainda uma oração, um beijo. Já era tarde. Havia partido gloriosamente e ascendido a algum lugar que ainda não fui.
Não choramos, até porque ele mesmo não chorou. Reunimos a família e cantamos louvores tristes. Só então choramos. Superamos, aos poucos, sem esquecer, contudo, aquela que seria, para ele, a última viagem.

Pauta para o bloinquês: 67ª edição conto/história "Olhou o relógio e viu que não dava mais tempo".