domingo, 8 de maio de 2011

O AMOR EM DOIS EXTREMOS


Podem discordar de mim, se eu disser que o amor perpassa dois extremos, quando eu me explicar, mas adianto que conto o que sinto e discordar ou concordar é com o leitor, porque eu já me “condiscordei” e “disconcordei” das minhas ideias. Então, siga comigo, ou pare por aqui.
Está aqui? Obrigado! Sinal que se interessou pelo que vou dizer. Digo-lhe: o amor caminha em dois extremos, sempre. Entre a idiotice e a intelectualidade; entre a loucura e a normalidade; entre o tudo e o nada; mistura várias dicotomias e nos deixa loucos.
Quando amo, me apaixono ou gosto, eu sou um idiota das minhas próprias expectativas e ilusões. Veja que a culpa é sempre minha, e não da pretendida. Alguém que ler esse texto poderá se identificar com isso, saberá do que estou falando. Ou não. Deixo o mistério, porque a ninguém, nem a ela mesma contarei. Ela descubra se assim convier. Mas não importa agora. Minha inteligência avisa das armadilhas, mas meu coração bobo e alucinado, como alguém entorpecido pelo ópio ou em devaneios por um “trago”, vai de encontro a essa teoria e “dá de cara com o muro”. Ele cai direitinho nas maiores armadilhas do amor, não prestando atenção que quando ela diz “oi, sou tua amiga” ele só ouve “oi, meu amado”. Ás vezes, após algumas quedas, por conta do delírio do ópio – a paixão – fica mais atento, e ai comete a maior loucura de um “drogado”: tentar racionalizar o amor, fazer poeminhas baratos e sem graça, mandar flores e entregar chocolates do tipo “sonho-de-valsa”, como se ela fosse aceitar a dança. Como se o coração dela já estivesse valsando com o coração aqui apaixonado... Ai meu coração enlouquece, ela vai embora, dizendo “muito obrigado” – por educação – e o ópio acaba. Seus efeitos devastadores já estão concretizados: coração apaixonado, ela na cabeça 24 horas por dia, sonhos noturnos, desejos não realizados, um prazer besta e insensato. Espere! Algumas já disseram “obrigado”, por satisfação e amizade, carinho e consideração, sem falsidade ou maldade, e uma delas, ou três, no máximo, estará lendo isso. Elas saberão que digo a elas em agradecimento? Sei não! Deixa pra lá... Mas mesmo elas foram como uma substância entorpecente que acabou. Meu coração ficou pedindo mais e mais, e lá não estava ela. Ela se foi. Acenou um adeus e eu chorei. Típico de um viciado depois que o efeito passa: dor de cabeça, decepção e arrependimento, choro, etc., mas não é que o danado do meu coração nem liga, esse ingrato! Ai fica culpando as meninas, meus amores e inspirações poéticas de que elas são as responsáveis pelo meu sofrer... Pobre coração, o meu! Elas nunca me disseram: “toma meu corpo, bebe meu sangue, serve-se do meu prazer, te dou tudo, sou teu ópio, teu amor, teu desejo, tua ressurreição!” eu e meu coração é que nos metemos a invadir essas deusas perigosas – as mulheres – e sem pedir licença vamos entrando, cheirando, provando, cobiçando, desejando – em tom poético, é claro, porque não são as deusas um objeto. Olha lá hein? – aqui todo sábio enlouquece, todo idiota se envaidece, todo poeta se despe, todo violeiro compõe uma canção e todo mundo se enrola. Mas todo drogado depois esquece os efeitos colaterais e vai lá dar uma cheirada de novo, injetar na veia o ópio que lhe causa prazer, pra depois sofrer! Meu coração se assemelha a um viciado e anda entre os extremos, igual ao amor... Olha ele de novo apaixonado, e prova disso é eu escrever outra vez, outras loucuras e devaneios, com ousadia maior, desafiando o leitor e pondo em mim uma interrogação exclamativa... Louco coração?!

DO RELACIONAMENTO ENTRE HOMENS E MULHERES

Estive lendo algumas coisas a respeito e pensei em comunicar aos meus leais leitores algumas das ideias que concordo, discordo ou sou imparcial, porque parece uma coisa pouco sabida e muito perguntada esse assunto de relacionamento. Cabe a tarefa impossível de compreender o universo do relacionamento homem-mulher, porque são dois opostos que só poderiam se casar pela doação de um e outro a respeito daquilo que o parceiro não tem.
Diz-se muito que os relacionamentos terminam porque os casais exigem e esperam muito do outro. Tal condição é inerente ao ser humano, e por isso não pode ser refutada. O que fazer? Então os casamentos estão condenados? Definitivamente, não. Mas há que se dizer: nem todas as mulheres estão para a maternidade e o casamento, assim como certos homens estão para a amizade desinteressada. Vamos considerar alguns pontos antes de continuar:

1 – MULHERES SÃO SENTIMENTAIS POR NATUREZA, NÃO SÃO RACIONAIS (NO SENTIDO DA DICOTOMIA RAZÃO/EMOÇÃO);
2 – HOMENS SÃO RACIONAIS POR NATUREZA, NÃO SÃO EMOTIVOS;
3 – RAZÃO DENOTA INTELIGÊNCIA; EMOÇÃO CONSTITUI HUMANIDADE;
4 – AS MULHERES EM GERAL SÃO MAIS INTELIGENTES DO QUE OS HOMENS;
5 – OS HOMENS MAIS RACIONAIS PODEM SER DERRUBADOS POR UMA SIMPLES EMOTIVIDADE FEMININA;
6 – O JOGO EMOCIONAL QUE ELAS FAZEM CONSTITUI UM PERIGO MORTAL PARA A CIÊNCIA RACIONAL;
7 – GRANDES PENSADORES E A PRÓPRIA PALAVRA TEM ALERTADO SOBRE AS QUESTÕES ACIMA (em Gênesis, a mulher foi criada para ajudar o homem, não para pensar tudo sozinha, não para racionar tudo; no novo testamento, a mulher simbolizava a igreja de cristo, porque a fé é como a emoção: não se explica pela razão, etc.).
8 – AS MULHERES GOSTAM DE ATITUDES, NÃO DE QUESTIONAMENTOS OU INSEGURANÇA;
9 – HOMENS EM GERAL NÃO TEM AMIGAS, E OS AMIGOS DELA SÃO FRUTO DE UMA NECESSIDADE QUE O PARCEIRO NÃO SUPRIU;
10 – A QUESTÃO NOVE CONSTITUI UM SEGREDO DOS HOMENS E UM CONSELHO PARA AS MULHERES;
11 – TENTAREI EXPLICAR AS QUESTÕES ACIMA, DANDO O DIREITO DE DISCORDAREM, DESDE QUE EXPLIQUEM DE FORMA RACIONAL (OS HOMENS) E EMOCIONAL (AS MULHERES), MAS LEMBRO QUE NÃO FAZEMOS CIÊNCIA SEM RAZÃO;

Voltemos à discussão inicial. No primeiro ponto, defendo que as mulheres são emotivas e no segundo, que homens são racionais. Serei rápido: todas as mulheres que eu conheço gostam de flores, chocolates, cartas e frases de amor; já os homens não são dados a isso: preferem pensar com o membro sexual, pular as preliminares e consumar o ato.
O pensamento racional rejeita qualquer ideia que não possa ser provada, pelo menos hipoteticamente; o amor já ganhou muitas causas, mas não salva ninguém sem um mínimo de razão. Caso os cientistas seguissem suas emoções, jamais teriam concretizado suas ideias em favor da humanidade, porque a emoção pressupõe desistência nas dificuldades; por outro lado, passar a vida toda por um ideal aponta humanidade, emoção. Mas uma e outra devem conviver sem interferir. Devem completar-se como num relacionamento maduro e responsável. Dai acredito que mulheres racionais e homens emotivos não estão dentro de suas naturezas, e isso seria um desastre, já que naturalmente estão condicionados a papéis que dependem dessas configurações humanas. Explico. Sem emotividade, a mulher não poderia ser mãe, diante de tudo o que passa. Daí elas serem naturalmente assim, emotivas. Por isso ela pensa no filho e dá a vida por ele. (Aqui abro um parêntese para dizer, mais adiante, que a mulher tem o objetivo nos filhos, e não no marido, e explico logo). Já o homem, que cuida da parte bruta, precisa pensar. Elas não pensam em nada na hora de ter a prole. Cabe ao macho decidir, conduzi-la e cuidar para que ela e o bebê estejam bem. Elas precisam se sentir seguras.
Aqui se faz mais longo o debate, e cuidadoso. Requer atenção. Vamos lá. Afirmei no ponto quatro que as mulheres em geral são mais inteligentes que os homens. Longe de querer desmerece-las, refiro-me à inteligência do ponto de vista estratégico, e não lógico. Vejam vocês, homens ou mulheres, que elas prestam atenção a várias coisas ao mesmo tempo, e pode executá-las, ainda que um pouco mais devagar que os homens. Estes pensam em uma coisa de cada vez. Olhem esse exemplo no trânsito. Há mais acidentes entre homens do que mulheres. Elas dirigem mais devagar – ainda que algumas tenham pânico de dirigir – são mais confiáveis ao volante, enquanto os homens ao volante se acham heróis.
Os homens mais racionais podem ser destruídos e humilhados por uma mulher (ponto 5). Os homens que se acham o máximo são os maiores débeis mentais, porque se acham inteligentes demais e confiam tanto em si, que não percebem as armadilhas que elas nos preparam. Os homens que expõem demasiadamente sua inteligência ou seu poder, os que acham que apenas o dinheiro podem conquista-las, os que imaginam que elas nunca irão trocá-los por outro, caso achem necessários, são idiotas e fáceis de ser enganados por elas.
Questão 6: o jogo emocional delas constitui o que chamei de inteligência superior aos homens, porque a emoção é uma arma tão complexa, que não pode ser explicada pela razão, e pode destruir qualquer ciência, e colocar qualquer homem fraco no domínio delas. O que há de se considerar, é que as mulheres precisam de homens equilibrados e independentes, tanto financeiramente, quanto emocionalmente. Homens que se prendem às emoções se esquecem de pensar e ficam loucos. Apaixonados e dependentes. Aqui elas atacam. Porque precisam de alguém que as defenda, já que a sua sensibilidade não permite uma ação imediata. Elas são práticas, a longo prazo, porque não pensam no agora, mas no futuro. É comum que homens fracos tornem-se garantias para ela, de um casamento sossegado. Homens pensam no agora. No sexo. Mulheres pensam em como vão cuidar dos filhos. Precisam de bons homens para isso.
Sobre o ponto 7, basta dizer que na literatura existe uma infinidade de homens sofredores por suas mulheres. Quase não há mulheres que se debatem pelos homens. Por quê? Uma razão explica: mulheres são confiantes no que possuem, visto que há nelas o poder de controlar nossas emoções e nos tornar dependentes. Homens precisam de sexo, e elas sabem controlar isso de uma maneira tal que nos tortura.
Antes que pensem que sou machista, digo que não o sou. Nem feminista. Fico do lado da razão, sem findar em um dos lados apenas. Porque há homens que tem sentimentos e mulheres de razão; nem todos querem apenas sexo, assim como existem mulheres que gostam mais de homens sentimentais do que brutos racionais. Mas eu nunca conheci um só homem que relatasse não sofrer por uma mulher que não lhe dava atenção, apesar das cartas de amor, declarações e correrias desesperadas atrás delas. Eu disse que elas gostam dessas coisas, mas tudo tem limite e ponderação. Além disso, essa dependência emocional é o que elas não querem. Elas desejam um homem que não dependam dela, para que elas possam encontrar um porto seguro. Mesmo assim, elas querem ao mesmo tempo liberdade e dependência. Liberdade para agir e pensar, e dependência de um homem que lhe alcance as necessidades. Quem já não ouviu de uma mulher que elas detestam homens pegajosos? Ao mesmo tempo, que querem um homem companheiro, que estejam juntos a elas nas horas de necessidade.
Já expliquei a questão oito; a 11 dispensa isso e a 10 será entendida quando eu explicar a questão 9. Ouço de muitos homens e mulheres que amizade de homem é sempre interessada. Concordo sem generalizar. Tendo em vista que a natureza do homem é o acasalamento, uma amizade pode ser a oportunidade para isso, já que a fêmea precisa ser conquistada e temos de ganhar confiança da parte delas. Há homens que têm amigas? Sim, mas há aquelas amizades que acontecem pelo único fato do interesse que temos por uma mulher: ficamos amigos, ganhamos a confiança, descobrimos coisas sobre elas, e as atacamos com as suas deficiências descobertas. Elas podem nos revelar segredos e necessidades, e daí decorre que, descobrindo isso, o homem faz disso uma carta de valor e as joga, para, “do verde colher a madura”. Há amizades de homens com mulheres que são verdadeiras, mas se essa amiga quiser um relacionamento, estando os dois desimpedidos, ou a mulher, então tal coisa se concretiza, pela vontade do homem. Isso porque o homem não vê o sentimento, mas a oportunidade do sexo. Homens bastante sentimentais ou terminam sozinhos, ou com mulheres de pouco cérebro, ou são traídos e trocados por outros. Isso explica o sofrimento dos poetas e o sucesso dos cafajestes milionários e bandidos, donos de haréns.
Explicado por que homens não têm amizades desinteressadas por mulheres, digo o porquê de amizades entre mulheres e homens serem o resultado de uma deficiência que elas não têm atendida pelo seu companheiro. Em geral esses amigos não demonstram interesse por elas, tornando-se independentes pelo anulamento da paixão e ganhando delas a confiança. Ainda que estejam interessados, os sábios negarão isso e a convencerão dessa ideia. Homens independentes e desinteressados não farão chantagem emocional e por isso elas confiam. Querem alguém que as ouça e não quem as questione. O parceiro que reclama e questiona levará um chifre e será trocado por outro que a compreenda.
Minhas últimas palavras se deterão no título dessa redação. Do relacionamento entre homens e mulheres conclui-se que os dois devem ser ao mesmo tempo dependentes, assumirem seus papéis e ampararem um ao outro em suas necessidades. Homens que não dão amor às suas mulheres podem ter a certeza de que serão trocados, porque elas não gostam da rotina desgastante; por outro lado, se esse amor os fizer dependentes e carentes da companheira, sugando-lhes as forças e a liberdade, como seres possessivos e sem atitude, impedindo-os de tomarem a medida correta, da mesma maneira serão também trocados, porque elas querem liberdade. Um homem que não ouve sua mulher estará da mesma forma condenado; um que ouve em demasia pode tornar-se brinquedo delas. Uma mulher que não oferece amor pode ser trocada por outra da rua; uma que enche o saco do esposo com choro e reclamação e não pensam por conta própria, são consideradas ingênuas e fáceis de serem traídas. Numa coisa concordam homens e mulheres: gostam de parceiros inteligentes e independentes, que ouçam e compreendam o parceiro, mas que não se prendam a eles emocionalmente, em demasia. Querem, ao mesmo tempo, liberdade total e alguém que defenda e ampare, ouça, entenda e dê conselhos. A cada dia, penso entender menos as relações entre homens e mulheres, essa guerra dos sexos que não para, e tão cedo não vai se apaziguar.

sábado, 23 de abril de 2011

A PROFECIA

I – A VISÃO*

Estava encostado num carro próximo ao meu local de trabalho. Era um dia normal. Cumprimentei a todos que passavam por mim, do jeito de sempre. Andei descuidado por esses dias e esqueci-me das unhas do pé. Alguém reparou. E fez um comentário em mal tom. Fiz de conta que não ouvi, porque estava pensando em algo. Longe, muito longe. É porque tive uma visão. Fiquei parado contemplando. O que estou para narrar aconteceu dentro da minha cabeça, como se fosse um filme. As pessoas pareciam distantes, eu mais ainda. Conto o que vi.

II – AS DUAS TORRES**

Primeiro observei duas torres muito altas, que tocavam o céu. No início, não consegui descobrir quais eram essas torres, e porque estavam em minha mente. Ouvi uma voz muito forte, também alta, que vinha do lado direito de onde eu estava. Falava em língua diferente de tudo o que já ouvi, mas eu compreendi as suas palavras. Não pude ver seu rosto, mas percebi uma luz muito intensa, de cor azul, vinda do mesmo lugar dessa voz. Perdi a noção do tempo, não sei o quanto fiquei ali até recobrar a consciência. Quando acordei, estava só, e continuava de pé. Olhei no relógio, e marcava quatorze horas, justamente a mesma de quando cheguei. Possivelmente tenha começado a ter essa experiência nessa hora, quando falavam comigo.


III – A PROFECIA


Parece estranho falar em profecias, num tempo em que os bíblicos negam qualquer possibilidade de mensagem post-mortem de cristo. Não devo demorar em explicações. Creio que todos saibam quem ele foi e é. As novas religiões acreditam que as comunicações nunca foram interrompidas. Seja assim ou não, disse-me o seguinte aquela voz da qual falei mais cedo: “Aquilo que estiver visto será coberto, e o que está coberto poderá ser visto do outro lado do mundo; o que está embaixo ficará mais ainda, e o que estiver em cima baixará à terra; mas o que estiver em cima se salvará, e o que ficar embaixo perecerá” antes que eu pensasse sobre isso, dirigiu-me outra vez a palavra: “terás um sinal, e não verás; soará uma voz, e não se ouvirá; a salvação estará nas montanhas, e a perdição estará em todo o lugar; no entanto, uma voz se levantou muito forte e ganhou o direito de escolher. Se ouvirem a voz, estarão a salvo, senão, hão de se perder muitas almas.”


IV – EU ENTENDI


Antes mesmo de eu pedir explicações, compreendi tudo. As duas torres não eram torres. Eram exatamente duas serras próximas, uma na nossa cidade, outra em cidade vizinha. Toda a terra vista seria coberta pelas águas, que era o invisível, que seria visto. Seria de tal forma que muitos veriam de longe. As montanhas (serras) eram a salvação. Todos deveriam ir para lá. E o que lhes conto daqui em diante compreendi dois dias depois: sobre as águas, porque se preparava uma tempestade muito grande; sobre o sinal, que era a mesma chuva; sobre a escolha, que era minha visão; sobre a voz, que me pertencia.


V – ALGUNS DIAS ANTES


Entendi em meu coração que havia uma coisa inexplicada no ar. Em poucos dias algo muito importante aconteceria. Foi sempre assim. Eu sentia, depois sabia; antes de tudo sonhava. Não desta vez. Foi mais forte agora. “Vi em sonho um navio muito grande, desproporcional, que navegava sem rumo. Lá dentro, toda sorte de animais e pessoas. Uma cruz invertida, no meio do oceano, que as águas eram muito altas, e passavam dos céus. Em seguida caiu do céu outra cruz, na posição correta, apontando para cima. Havia alguém crucificado. O navio então se orientou por ela, que lhe parecia uma bússola. Dois mil anos depois as águas haviam baixado muito, e as pessoas que moravam no navio estavam velhas demais, e cultuavam deuses estranhos, com cruzes invertidas, e tinham na testa a marca de um sete invertido, que era muito fundo. De repente, um grande trovão quebra o silêncio de dois mil anos, e revela coisas, mas nem todos ouvem, porque estavam ocupados demais com a luxúria, o sexo exacerbado, a alta dos impostos, a bolsa de valores, os novos pecados que não existiam ainda, o consumo excessivo de bebidas, comidas e tabaco. Também estava surdo quem zombava da igreja de cristo, e criticava os irmãos, esquecendo de praticar o amor e a caridade. Eram poucos os que ouviam, e menos ainda os que davam importância ao trovão. Muitos choravam porque não entendiam, outros porque não ouviam”. Então, eu acordei.


VI – NESSA MESMA HORA


A ultima visão não foi mais do que a lembrança da primeira, e a revelação de que se aproximava o caos. Decidi esperar para ver o que acontecia, mas em meu coração estava preocupado. Alguns dias se passaram ainda, depois da segunda revelação. Logo, aconteceu.

VII – O VELHO E O NOVO

Merece uma explicação, o sonho que lhes contei. Mais tarde, será correto saberem o motivo destas coisas que retenho em palavras escritas. A cruz invertida significa todo o pecado desde adão até os tempos de Noé; as águas e a barca referem-se à aliança entre Noé e Deus, e a nova humanidade. A outra cruz com o crucificado em forma de bússola é Jesus crucificado por nossos pecados, e que orientou a humanidade para os caminhos de Deus. Dois mil anos depois, as pessoas estavam muito esquecidas de Jesus, e dos planos dele, e se distanciaram de Deus com suas práticas egoístas, e por isso explico as águas que baixaram muito. A voz em forma de trovão era uma reação a tudo aquilo, era a mesma voz que ouvi na segunda visão.



VIII – O INVISÍVEL VISÍVEL

A cidade acordou naquela segunda-feira sem perceber nada de anormal. Nem eu havia dado conta de imediato. Observei o céu à procura de alguma coisa que não sei. A chuva fina caia intrépida, há três dias, e o sol permitia, ao final do dia, um laranja triste, meio acobreado, e o fim da noite era trocado por um amarelo queimado meio sem graça. Era esse o sinal. Ficou do mesmo modo por sete dias. No sétimo, deu-se a catástrofe. Lembrei do número invertido em muitas frontes, e que agora se mostrava em sete dias. O sinal do caos era esse: sete dias se passariam, até que viria o dia em que o invisível se tornaria visível. O número invertido indicava a perversão de tudo o que era divino, e o sétimo dia concretizou o que chamei de “escolha”. Nesse dia, triplicou a queda das águas, de tal maneira que rapidamente as saídas não davam conta de escoá-las. Vi, ao meio-dia, carros boiando, o lixo sendo levado pela correnteza. Daí me dei conta de que estava com água até os joelhos. Acordei do sono. Aquela era à hora, a voz que poderia salvar.


IX – AS DUAS TORRES

Saí num pulo e deixei tudo para trás, e não retornei por um grande espaço de tempo. Vi pessoas correndo, outras chorando, muitas tentando salvar o que estava perdido. Apontei para as montanhas e disse que deveríamos ir para lá. A chuva aumentou muito nessa hora, como se fosse um aviso, ou um medo. Lembro que muitos correram para onde indiquei. Não olhei para trás. Quando percebi, já estava lá, nas montanhas. Muitos não ouviram, mas os que ouviram se salvaram. De lá, vi algumas embarcações, que vendiam alimentos, e duas mulheres nuas, em outra barca, que logo depois soube que ficaram debaixo das águas. Eram duas cafetinas. Dois dias depois, as águas baixaram, e pudemos descer. Nos alimentamos de frutos silvestres, e de animais. O céu estava limpo, e não ameaçava outra chuva. Sonhei com este pequeno livro, e em muitos lugares ele foi queimado. Publiquei mesmo assim. Ele contou os fatos que tomaram um quarto do globo terrestre, e levaram embora as minhas visões proféticas. Para sempre.


A PARTILHA

José e Maria tinham cinco filhos, muito amor para dar, mas pouco pão a oferecer. Os filhos, ainda pequenos, choravam de vez em quando, a fim de denunciar a todos que ali havia cinco novas vidas. Maria cuidava da casa enquanto José, desempregado devido à falência da sua empresa, vivia de bicos e doações dos visinhos e amigos.

José sempre foi uma boa pessoa, generoso com todos, nunca negava pão a quem lhe batia à porta. Maria, sempre generosa, estava disposta a ajudar a qualquer necessitado que precisasse. Mas a pobreza abalou o marido de tal forma que ele ficou abatido e desgostoso com a vida, e já não ajudava aos outros como antes. A fé de Maria jamais foi abalada; se tinha hoje dois Pães, dava metade a alguém que lhe pedisse. José sempre a repreendia por isso, mas ela dizia que Deus daria um jeito naquela situação.

Foi quando, uma noite muito chuvosa, aparece uma mãe desesperada batendo à sua porta, pedindo dez reais para completar o dinheiro e comprar o remédio do filho de um ano, que sofria bastante do coração, e precisava do remédio com urgência, pois estava à beira da morte. Sem hesitar, Maria dá os dez reais àquela desconhecida, que num instante ficou agradecida. Maria jamais esquecerá o brilho daqueles olhos. Ela entregou justamente o único dinheiro que tinham para comprar o alimento da semana. José ficou contrariado com aquilo, mas acabou se conformando.

Acabaram dormindo ao cair da noite, eles e os filhos; não pelo sono, mas pela fraqueza da fome. Passava da meia-noite quando Maria acordou com o choro de um dos filhos. Era o desespero da fome... Qual não foi a sua surpresa ao ver a mesa repleta de alimentos! Instantaneamente Maria acordou José. A única coisa de que Maria lembrou, além de agradecer a Deus, foi daquela mulher misteriosa, que o tempo não fez esquecer o brilho daqueles olhos. Aquela mulher nunca mais foi vista, nem souberam noticias a respeito do menino enfermo. Os visinhos não se recordavam dela, dizendo jamais ter visto tal figura pela redondeza. E tiveram novamente fartura. E José aprendeu o dom da PARTILHA

A PENA DA PENA DO POETA


Pode o poeta escrever às duras penas
As penas que pena na vida;

Pode o poeta ver o penar de outrem

E escrever sem contar a ninguém

Que a pena penou escrevendo

Um suspiro que não era seu;

Pode a pena que escreve

Imaginar situações diversas

Que o poeta não viu e não viveu,

E fazer pena descobrir

Se é do poeta a pena,

Ou se a pena

Não é da pena

Do poeta que pena!